terça-feira, 31 de janeiro de 2012

"Vai tudo bem?"

Ao ver chegar um mensageiro com boas notícias, o rei Davi apressou-se em perguntar-lhe: "Vai tudo bem para o jovem Absalão?" (II Sm 18,32) Parece normal, se tivermos em conta que Absalão era filho de Davi; nada mais coerente que perguntar pelo bem-estar do filho, sobretudo em tempos bélicos. Mas a pergunta se torna peculiar quando lembramos que era Absalão o causador da guerra! Era ele quem tinha se levantado contra o pai, tornando-se seu inimigo! Agora sim, parece estranho que Davi pergunte pela vida de seu opositor, e que tenha se encerrado em luto ao saber que a notícia trazida era sobre a morte de Absalão. Davi chega a exclamar: "Meu filho, meu filho Absalão! Por que não morri eu em teu lugar?" (II Sm 19,1).
Ora, nesse momento, Davi não pensou no que havia feito Absalão: pensou em quem ele era, seu filho, a quem amava. Não importava que se tivesse tornado seu inimigo. Penso que é por isso que a Bíblia diz que Davi era um homem conforme o coração de Deus - já que Deus também nos olha com amor de Pai, não importando o que tenhamos feito de errado. 
Mas não é sobre o amor paterno de Deus que gostaria de refletir aqui, e sim sobre a nossa capacidade de pensar como Davi. Todos os dias bombardeados com cenas de tragédias nos jornais, tramas bem enredadas de novelas, sensacionalismos de reality shows, será que somos capazes de ver as pessoas como pessoas? Lembrar que por trás das atitudes erradas, há filhos amados de Deus, há almas que Ele quer ver felizes assim como nós? Quantas vezes a nossa resposta é desejar o mal para quem faz o mal, a morte para quem matou... Mesmo em nossas relações pessoais: quantas pessoas não queremos mais ver porque nos fizeram sofrer de algum modo! Seríamos capazes de, como Davi, nos preocuparmos com elas, com suas vidas, com sua saúde, com sua salvação? A vitória para nós se tornaria luto, se ela significasse a perda da vida de alguém, mesmo que um inimigo - ou isso faria a vitória ainda mais digna de comemoração, a nosso ver?
São Josemaría Escrivá descobriu que em todos os homens há bondade, porque foram criados por Deus, e a Sua criação é boa. "De cem almas", dizia, "interessam-nos as cem". Deveria nos ferir o fato de que tantas almas se percam na criminalidade; não deveríamos sentir prazer ao torcer para que o vilão da novela tenha um fim bem triste; eu deveria ter compaixão por quem me fez sofrer! Que a dor de Davi pela morte de seu inimigo nos ensine isso: havemos de nos preocupar também com os que fazem o mal e com os que nos fazem o mal. Também são filhos de nosso Pai, também possuem corações e almas; precisamos desejar-lhes o bem, desejar que sejam felizes e, se fizeram coisas erradas, que se redimam. Hoje, num ato heróico, a respeito de quem posso perguntar "Será que vai tudo bem com ele(a)?"

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