sábado, 1 de dezembro de 2012

E nós, fazemos o quê?

Frequentemente recebo notícias de protestos violentos causados pelo uso desrespeitoso de figuras da religião islâmica. Sei que são motivados não só pelo respeito que os muçulmanos têm à sua fé, mas também por questões conflituosas com a cultura ocidental e outras coisas mais; além disso, não sou de modo algum favorável à violência para defender a fé. No entanto, quero contrastar o profundo rancor que as caricaturas do profeta Maomé provocam, por exemplo, com a indiferença do mundo ocidental (supostamente cristão) diante do uso das figuras de nossa fé.

Atualmente, certa marca de roupas masculinas tem elaborado paródias de diversos personagens para estampar apologias ao crime e à violência. Livremente! Indiscriminadamente! E o pior: entre os parodiados pelas estampas estão Jesus e Maria Santíssima, como mostram as figuras aqui postadas. E nós, fazemos o quê? E nós, o que podemos fazer?

As camisetas assim "decoradas" têm feito muito sucesso. Quase todos os dias vejo alguém na rua com uma dessas. Será que não nos sentimos ofendidos? São Jesus e Maria que estão sendo desrespeitados em suas representações. Alguém poderia argumentar: mas as imagens não são Jesus e Maria. Porém, algum de nós gostaria de ter sua foto assim parodiada? Ou um desenho caricatural ofensivo de si?
Mais uma vez explico: não estou convocando nem sugerindo o uso da violência contra essa situação. Mas pergunto: em que isso nos afeta? E o que podemos fazer?

terça-feira, 10 de julho de 2012

A Igreja do "Eu Sozinho"

Entre as muitas "igrejas" que surgem a cada curto espaço de tempo no Brasil, nenhuma é mais popular do que a Igreja do Eu Sozinho. Ela está presente em pequenas portinhas e em grandes galpões; está também presente no rádio, na TV e na internet. E caso você ache que não conhece essa igreja, saiba que você muitas vezes já passou por ela sem saber. Acontece que a Igreja do Eu Sozinho fica escondida sob outros nomes.
Essa "igreja" se diz cristã, mas muito pouco guardou da vida e da palavra de Nosso Senhor Jesus Cristo; se diz evangélica, mas só prega partes do Evangelho que lhe são convenientes; frequentemente, chega a se denominar pentecostal, sem revelar (e talvez até sem saber) o que de fato foi e para que aconteceu o Pentecostes.
Mas não é difícil identificá-la sob os muitos disfarces que assume. Basta prestar atenção no seu discurso. Ontem, por exemplo, certo programa de televisão religioso mostrava o testemunho de um casal cujo filho tinha uma doença respiratória. A história emocionante da família assim se resume: quando decidiram "patrocinar" o filho (isto é, dar uma contribuição em dinheiro para certa igreja em nome do rapaz), ele ficou curado, além de ter melhorado a situação financeira da família. Nada contra contribuir financeiramente para a obra de Deus. Sou dizimista, ora! O problema é que, do modo apresentado, a relação com Deus fica parecendo uma interminável "barganha": dá-se dinheiro, e em troca Deus dá cura física e prosperidade material. E por, isso, essa igreja é a Igreja do Eu Sozinho: para ela, não importam muito salvação, conversão e caridade; o fruto que se espera de Deus se limita a esse mundo, e deve beneficiar a ninguém menos que... a mim mesmo, "patrocinador fiel"!
Como movimentos assim podem se chamar cristãos? Contra tais formas erradas de praticar o cristianismo, é Jesus quem nos recorda: "Trabalhai, não pelo alimento que se perde, mas pelo alimento que permanece para a vida eterna" (João 6,27), e que nos questiona: "Onde está o teu irmão?" (Gênesis 4,9). E o que responderemos? 
É bom que as muitas Igrejas do Eu Sozinho se convertam; ou vão responder diante de Deus pela sua teologia material-individualista.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Ninguém ama porque quer

Ontem ouvi no rádio uma música da cantora Ana Carolina; a letra é bonita, mas uma frase me chamou a atenção: "Ninguém ama porque quer". Chamou-me a atenção porque discordo absolutamente da autora!
Ora, amor não é sentimento, é decisão. E para amar de verdade, é preciso muito querer, uma vez que amar implica doação e renúncia. Passar a noite em claro por um filho doente; viver um namoro casto; abandonar-se a si mesmo para cuidar dos mais pobres... são gestos de amor. E só pode praticá-los quem quer amar verdadeiramente, sem esperar nada em troca, ainda que não sinta grandes arroubos de emoção.
Na letra da música que escutei (chama-se Simplesmente Aconteceu), eu mudaria a frase supracitada por "Só ama quem quer". Talvez não encaixasse tão bem na melodia... mas traduziria muito melhor o que é amor.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Enquanto isso, o feminismo funkeiro...

Todos nós já ouvimos - ao menos uma vez, ainda que sem querer - alguma pérola do funk carioca. Abdicando de qualquer espécie de melodia harmônica, reduzindo-se a uma batida constante, os MC's têm descido cada vez mais o nível de suas letras... Os MC's e as MC's. Estas parecem afirmar certa "independência", "modernidade" e "força de caráter" ao esparramar um vocabulário baixo e que na verdade desvaloriza elas mesmas. Mas que tipo de afirmação da mulher é essa?
Emma Goldman, uma anarquista e feminista norteamericana (há um bom artigo sobre ela aqui), é autora de uma frase mais ou menos assim: "Se não posso dançar na sua revolução, não quero participar dela." Penso eu: que tipo de revolução feminina se faz com os funks que ouvimos tantas mulheres cantar e dançar? A meu ver, com essas "músicas" só se faz regressão.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

"Vai tudo bem?"

Ao ver chegar um mensageiro com boas notícias, o rei Davi apressou-se em perguntar-lhe: "Vai tudo bem para o jovem Absalão?" (II Sm 18,32) Parece normal, se tivermos em conta que Absalão era filho de Davi; nada mais coerente que perguntar pelo bem-estar do filho, sobretudo em tempos bélicos. Mas a pergunta se torna peculiar quando lembramos que era Absalão o causador da guerra! Era ele quem tinha se levantado contra o pai, tornando-se seu inimigo! Agora sim, parece estranho que Davi pergunte pela vida de seu opositor, e que tenha se encerrado em luto ao saber que a notícia trazida era sobre a morte de Absalão. Davi chega a exclamar: "Meu filho, meu filho Absalão! Por que não morri eu em teu lugar?" (II Sm 19,1).
Ora, nesse momento, Davi não pensou no que havia feito Absalão: pensou em quem ele era, seu filho, a quem amava. Não importava que se tivesse tornado seu inimigo. Penso que é por isso que a Bíblia diz que Davi era um homem conforme o coração de Deus - já que Deus também nos olha com amor de Pai, não importando o que tenhamos feito de errado. 
Mas não é sobre o amor paterno de Deus que gostaria de refletir aqui, e sim sobre a nossa capacidade de pensar como Davi. Todos os dias bombardeados com cenas de tragédias nos jornais, tramas bem enredadas de novelas, sensacionalismos de reality shows, será que somos capazes de ver as pessoas como pessoas? Lembrar que por trás das atitudes erradas, há filhos amados de Deus, há almas que Ele quer ver felizes assim como nós? Quantas vezes a nossa resposta é desejar o mal para quem faz o mal, a morte para quem matou... Mesmo em nossas relações pessoais: quantas pessoas não queremos mais ver porque nos fizeram sofrer de algum modo! Seríamos capazes de, como Davi, nos preocuparmos com elas, com suas vidas, com sua saúde, com sua salvação? A vitória para nós se tornaria luto, se ela significasse a perda da vida de alguém, mesmo que um inimigo - ou isso faria a vitória ainda mais digna de comemoração, a nosso ver?
São Josemaría Escrivá descobriu que em todos os homens há bondade, porque foram criados por Deus, e a Sua criação é boa. "De cem almas", dizia, "interessam-nos as cem". Deveria nos ferir o fato de que tantas almas se percam na criminalidade; não deveríamos sentir prazer ao torcer para que o vilão da novela tenha um fim bem triste; eu deveria ter compaixão por quem me fez sofrer! Que a dor de Davi pela morte de seu inimigo nos ensine isso: havemos de nos preocupar também com os que fazem o mal e com os que nos fazem o mal. Também são filhos de nosso Pai, também possuem corações e almas; precisamos desejar-lhes o bem, desejar que sejam felizes e, se fizeram coisas erradas, que se redimam. Hoje, num ato heróico, a respeito de quem posso perguntar "Será que vai tudo bem com ele(a)?"
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